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A Guerra

A justificação de uma guerra com a integridade de um império multicontinental e a recusa de negociações com os independentistas comportavam, para os militares portugueses, condições muito adversas.

A guerra processava-se em três territórios, de muito elevada dimensão, se comparados com Portugal continental, e com condições geográficas e climatéricas muito distintas.
Os teatros de operações eram descontínuos e distantes entre si e ainda mais distantes da sede do poder político e militar português, gerando problemas logísticos e agravando os custos financeiros. Nos cenários de guerra, movimentava-se mais do que um adversário, cujos métodos agravavam as formas e os processos de planificação.

A prossecução dos conflitos por uma década tornou o recrutamento um problema transversal a toda a sociedade portuguesa, afetando a relação com o regime político e a sua base de apoio.

Notícia da audiência concedida a 1 de Julho de 1970 por Paulo VI aos líderes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, Amílcar Cabral (PAIGC), Agostinho Neto (MPLA) e Marcelino dos Santos (Frelimo). Fonte : PAIGC Actualités, n.º 19, julho de 1970
Notícia da imprensa portuguesa condenando a audiência concedida por Paulo VI aos lideres dos movimentos de libertação da colónias portuguesas. Fonte: Diário de Notícias, 5 de julho de 1970
Propaganda das Forças Armadas Portuguesas. Fonte: Ephemera

As oposições

Para as correntes em oposição ao Salazarismo, a Guerra Colonial abriu uma nova e mais significativa frente de contestação. O Partido Comunista Português e os setores de matriz republicana, socialista e demoliberal introduziram o fim da guerra entre as suas reivindicações.

Entre os estudantes, sobretudo universitários, o recrutamento militar, a par da duração da permanência no teatro de guerra, tornou-se uma matéria cada vez mais sensível. A mobilização de novos setores em oposição declarada ao regime, a diversificação de métodos de contestação e a sua radicalização contribuíram para o alargamento da rutura com o regime ditatorial.

Mário Soares à saída do Overseas Press Club onde proferiu uma conferência sobre a política colonial do governo português, 1 de abril 1970. Fundo: FMSMB, Arquivo Mário Soares
Artigo publicado no órgão central do Partido Comunista Português contra a Guerra Colonial. Fonte: Avante, maio de 1963

Os católicos: politização e luta contra a Guerra Colonial

A Guerra Colonial contribuiu decisivamente para a intensificação da politização de setores católicos portugueses.

Às declarações conjuntas de finais da década de 1950, sobretudo em torno da campanha presidencial de Humberto Delgado, com críticas ao regime político de Salazar, juntaram-se manifestos mais alargados, como foi o caso de um manifesto assinado por 101 católicos em 1965.

Manifesto dos 101 católicos. Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra

Revistas lançadas por católicos com significativo impacto público, como O Tempo e o Modo, e iniciativas como a Cooperativa Pragma permitiram alargar a base de contestação num setor usualmente tido como afeto ao regime. O mesmo se diga da produção e da difusão – mesmo que fortemente restringidas pelas instâncias de repressão do regime – de boletins com informações, dossiers sobre a Guerra Colonial portuguesa e reflexões sobre a doutrina pontifícia em torno de conflitos armados. São os casos de Direito à Informação, Cadernos GEDOC, Boletim Anti-Colonial ou Cadernos sobre a Guerra Colonial.

Publicado com atraso, o número 62-63 da Revista O Tempo e o Modo dedica grande atenção ao recém empossado Presidente do Conselho Marcelo Caetano. Fonte: O Tempo e o Modo, n.º 62-63, julho-agosto de 1968.
Iniciada em outubro de 1972, a publicação do Boletim Anti-Colonial corresponde à necessidade de melhorar o trabalho desenvolvido desde 1963 pelo grupo promotor do Direito à Informação, fomentando a reflexão sobre o problema da Guerra Colonial. Fonte: BAC - Boletim Anti-Colonial n.º 1, outubro de 1972
Os Cadernos GEDOC - Grupo de Estudos e Intercâmbio de Documentos, Informações Experiências, iniciam a sua publicação em 1969, sob a direção de Nuno Teotónio Pereira e dos padres Felicidade Alves e Abílio Cardoso. Fonte: FMSMB, Documentos Felicidade Alves
Sócios da Pragma, em frente à porta da Sociedade Nacional de Belas Artes, onde se previa a realização de uma sessão de convívio comemorativa do 3.º aniversário da Cooperativa
Publicados clandestinamente, em 1971, pelo grupo do Direito à Informação, os 7 Cadernos sobre a Guerra Colonial tiveram um grande impacto junto da oposição. Seriam reeditados depois de derrubada a ditadura. Fonte: 7 Cadernos sobre a Guerra Colonial, Lisboa, Afrontamento, 197
Fonte: Direito à Informação, orgão de informação dos católicos progressistas, n.º 16, janeiro de 1969

Figuras com posições de destaque no catolicismo e em rota de colisão com o regime e com a hierarquia legitimaram e intensificaram outras formas de dissidência política. O impacto público do caso do Padre Felicidade Alves constitui um dos momentos mais significativos desses processos.

O Padre Felicidade Alves acompanha a Rainha de Inglaterra na sua visita ao Mosteiro dos Jerónimos em fevereiro de 1957. Fonte: FMSMB, Documentos Felicidade Alves
Fotografias do Padre José da Felicidade Alves para cadastro por ocasião da detenção pela PIDE, 1970. Fonte: FMSMB, Documentos Felicidade Alves

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