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Nikias Skapinakis: Pintar e Ficar

Nascida em 1973, natural de Lisboa, Portugal.

Nikias Skapinakis: Pintar e Ficar

Nikias começou a expor em 1948. Afirmará que pintou sempre o que lhe apeteceu, ainda que, às vezes, com dificuldade. Mas que quadros serão esses que ele pintou com dificuldade? É necessário olhar para um Portugal muito diferente para perceber a referência. No início dos anos 60 (com 30 anos), Nikias tomará duas decisões que irão marcar o seu percurso futuro: dedicar-se exclusivamente à pintura e permanecer no país. Abandona, assim, a atividade pedagógica e mais de doze anos de atividade política. Dirá mais tarde que o ensino exigia tempo e dedicação e que a política afastava a concentração necessária ao ofício da pintura. Nesta altura, “retirado” da vida pública, pondera também sair de Portugal, mas decide ficar, contrariando a tendência de exílio dos artistas. Irá referir muitas vezes, como exemplo, Souza Cardoso, que desenvolveu a parte mais importante da sua obra no isolamento de Manhufe, e olhará para Viana, Almada e Eloy. Reconhecerá também que nunca poderia ter pintado os melancólicos retratos coletivos da sociedade portuguesa se tivesse partido. Apesar de afirmar que “a pressão das situações reais raramente terá influenciado diretamente os temas ou os motivos” («As respostas possíveis», Algumas Perguntas a Nikias Skapinakis. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, p. 23) do que pintou, esteve sempre em sintonia com o presente. E é essa sintonia com um país fechado numa ditadura que vamos encontrar nas obras deste período.


Um testemunho com o pincel na mão – lista de imagens

Breve biografia

Nikias Skapinakis, de ascendência grega, nasceu em 1931 e começou a expor nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, com 17 anos. Frequentou o curso de arquitetura que abandonou para se dedicar à pintura, atividade que manteve até à data da sua morte, em 2020. Realizou inúmeras exposições individuais e participou em diversas exposições coletivas. Para além da pintura a óleo, dedicou-se ao desenho, à litografia, serigrafia e ilustração de livros. Publicou textos de intervenção crítica em diversos jornais e revistas. Viveu e trabalhou em Lisboa. Consulte o percurso artístico do pintor em detalhe. (Link:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Nikias_Skapinakis)

Percurso político e pedagógico

Nikias foi expulso por dois anos letivos da Escola Superior de Belas Artes por “Propaganda de ideias dissolventes”, incluído num processo académico que abrangeu outros estudantes. Na altura, começara a dividir o seu primeiro atelier com Jorge Vieira e Tomás de Figueiredo e a expulsão, motivada pelo testemunho a favor de um aluno acusado de fazer inscrições a favor da PAZ, coincidiu com a decisão de abandonar o curso e dedicar-se à pintura.
Nos anos 50, esteve ligado ao grupo da Seara Nova, de cuja redação fez parte. Em meados dos anos 50, partilhou um atelier na Vila Martel (Rua das Taipas, n.º 55), com Bartolomeu Cid e Sá Nogueira, onde permaneceu até 2015. Foi candidato a deputado por Lisboa, nas listas da Oposição, em 1957 e 1961. Em 1959, participou na conspiração da Sé. Entre 1957 e 1961, foi professor no Liceu Francês Charles Lepierre (dos 10 aos 17 anos) e no Instituto de Educadoras de Infância. Foi responsável pelos estágios das alunas do Instituto na escola Beiral, que abrangia crianças da pré-infantil à primária. Publicou artigos sobre o grafismo infantil na Seara Nova. Ligado ao movimento da Educação pela Arte, lançado por Herbert Read, organizou as conferências sobre a Educação Estética no Ensino (publicadas pela Livraria Sá da Costa) e realizadas nas Belas Artes, onde intervieram, para além de Nikias, Delfim Santos, João dos Santos, Rui Grácio, João de Freitas Branco, Luís Francisco Rebelo e Nuno Portas. Em outubro de 1961, na sequência da assinatura do Programa para a Democratização da República, a PIDE emitiu um mandado de captura contra Nikias. O pintor esteve inicialmente refugiado em casas de diversos amigos e, em 1962, após o fracasso da Revolta de Beja, pediu asilo político na Embaixada do Brasil. Saiu da Embaixada, ao fim de seis meses, amnistiado, como os restantes signatários do Programa. Foi preso em outubro desse ano, numa cilada na livraria Bertrand do Chiado, acusado de pertencer ao Partido Comunista e à Junta Patriótica de Salvação Nacional. A PIDE não conseguiu provar a acusação e foi colocado em liberdade ao fim de seis meses, em abril de 1963. Nikias Skapinakis nunca pertenceu ao Partido Comunista.

Por incompatibilidade com a vida profissional, abandonou a atividade política e a atividade pedagógica depois de 1963.

Bibliografia consultada

SKAPINAKIS, N. (1987). As respostas possíveis. In Algumas Perguntas a Nikias Skapinakis (pp. 21-64). Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

SKAPINAKIS, N. (2007, 18 de julho). Memória Resumida. JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, N.º 960.

RIBEIRO, A. M. (2009, 30 de dezembro). Nikias Skapinakis, o pintor que vive dentro da tela. Público Ípsilon. Disponível online em:  http://ipsilon.publico.pt/artes/entrevista.aspx?id=248066

SKAPINAKIS, N. (2009). Pintura: Inactualidade ou perenidade: Episódios do trabalho de um pintor. Lisboa: Artistas Unidos; Instituto de História da Arte – Estudos de Arte Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (Conferência).

SKAPINAKIS, N. (2010, 9 de fevereiro). Notas sobre Paisagem-Bandeira Portuguesa. JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, N.º 1027.

SKAPINAKIS, N. (2010, 29 de dezembro). Um Foragido na Embaixada do Brasil. JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, N.º 1050.

Maio de 2023

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